Todo esportista de alto
nível conhece uma das regras mais difundidas
nos últimos anos: para um excelente desempenho,
exercício só não basta.
Essa máxima serve para
todos. Para atingir algum resultado acima da média
(seja perder peso, melhorar o sistema cardiovascular
ou tornar-se atleta de elite), é necessário
estar atento aos chamados do coração
e dos pulmões.
Uma pessoa com boa capacidade de oxigenação
pulmonar (e nesse grupo se situam os chamados
atletas de elite) consegue saturar o nível
do gás entre 90 e 95%. Isso representa
menos desgaste e, conseqüentemente, menos
cansaço físico.
Como resultado do processo de metabolismo do oxigênio
no corpo são produzidos radicais livres
com grande capacidade para reagir com o tecido
pulmonar e fortalecer a resistência orgânica,
diminuindo as perdas de sais minerais, eletrólitos,potássio
e água.
O resultado é que esses atletas precisam
de mais cuidados pois, por não sentirem
o desgaste, podem estar sujeitos a um mal súbito.
Eles precisam recolocar no organismo as energias
perdidas, com muita água, sais minerais
e potássio, mesmo que aparentemente não
estejam sentindo nada.
O tenista sueco Bjon Borg, número um do
mundo em 1977, era temido pelos adversários,
que o chamavam de “Iceborg” devido
à frieza que demonstrava em qualquer situação,
e foi um exemplo clássico: sua saturação
sempre se aproximava do máximo e ele podia
jogar sem sentir exaustão e sem elevar
a freqüência cardíaca. Há
dois anos, um novo teste foi feito com ele e Borg
apresentou a incrível marca de 91% de oxigenação.
O que revela, sem nenhuma dúvida, uma ótima
predisposição genética.
Mesmo assim, ele se cuidava para não ter
surpresas durante as competições.
Mas nem só de atletas de alto rendimento
vive o esporte. E para aqueles que fazem exercícios
físicos sem a ajuda de especialistas, médicos
e fisiologistas dão alguns conselhos que,
seguidos à risca, podem ajudar a manter
a vida saudável com atividades regulares.
Nova fórmula para o batimento
cardíaco
Contar quantas vezes o coração
bate por minuto e relacionar o resultado com a
idade é uma maneira fácil e eficiente
de saber como anda a saúde antes de iniciar
uma caminhada.
O cálculo para achar a freqüência
cardíaca máxima da população
média foi rascunhado nos anos 50 pelo cientista
americano M.J.Kavornnen e refeito pelos fisiologistas
Samuel Fox e William Haskell em 1967. Ainda utilizada
nos dias de hoje, a fórmula, que permite
achar as zonas ideais de treinamento, é
bem simples. Basta subtrair a idade de 220. Depois,
adequar o número final aos seguintes padrões:
para ativar o sistema cardiovascular, deve-se
manter a freqüência cardíaca
entre 70% e 85% da máxima; para perder
peso, manter entre 55% e 70%.
Não é por acaso que o número
220 é a base da fórmula. Ele representa
o total de batimentos por minuto do coração
de um recém-nascido. Subtraindo-se a idade
atual desse número se chega ao valor que
pode orientar as atividades físicas.
A novidade: esse cálculo, há mais
de três décadas tido como padrão
de boa conduta esportiva em centros de fitness
de todo o mundo, está superado. Estudo
publicado por pesquisadores da Universidade do
Colorado afirma que a fórmula não
deve ser usada para estabelecer a faixa de segurança
da freqüência cardíaca, por
dois motivos:
1) Os mais jovens acabam se exercitando além
dos limites, colocando em risco músculos,
articulações e coração;
2) Pessoas acima dos 50 anos se exercitam abaixo
do potencial. Ou seja, gastam horas de esteira
sem nenhum benefício coronário,exatamente
o que mais procuram.
Para chegar às novas
conclusões, os fisiologistas do Colorado
fizeram nada menos que 351 estudos com 492 grupos.
Ao todo, 18.712 pessoas, com idades entre 18 e
81 anos, foram avaliadas. Na pesquisa realizada
em 1967, não havia um indivíduo
sequer que tivesse mais de 60 anos.
Encabeçada pelos médicos Douglas
Seals e Hirofumi Tanaka, a nova teoria ganhou
reputação ao ser publicada no Journal
of the American College of Cardiology, pois utilizou
um método diferente dos pioneiros Haskell
e Fox que, depois de avaliar a freqüência
em repouso e durante exercícios de pessoas
de diversas idades, chegaram à conclusão
de que a cada ano de vida o ser humano perdia
um batimento cardíaco.
A nova fórmula encontrada para achar a
freqüência cardíaca máxima
foi multiplicar a idade por 0,7 e subtraí-la
de 208.
O novo cálculo pode não significar
nada para a maioria das pessoas, mas exemplos
simples revelam o que ele representa. Pela fórmula
antiga, um homem saudável, com 70 anos,
poderia exercitar-se a 150 batimentos cardíacos,
no máximo. Pelo novo cálculo, ele
pode chegar a 159. Um homem de 80 anos teria sua
freqüência máxima alterada de
140 para 152. Com um jovem de 20 anos ocorre o
contrário. Se levarmos em consideração
o padrão antigo, ele poderia atingir os
200 batimentos, enquanto a nova fórmula
propõe 194.
A diferença de batimentos por minuto, apesar
de pequena, é significativa. Quando o coração
é levado a se esforçar mais do que
o suportável, bate tão rápido
que não tem tempo de se recuperar entre
uma contração e outra. Isso pode
acarretar falta de fluxo sanguíneo no miocárdio,
a camada mais espessa da parede do órgão.
É uma agressão poderosa, que pode
resultar numa arritmia passageira para quem é
saudável ou até num infarto agudo
em pessoas debilitadas por hipertensão,
diabetes ou outras doenças do coração.
“Esses poucos batimentos para mais ou para
menos representam riscos sérios, até
morte em casos patológicos”, diz
o professor de fisiologia Turíbio Leite
de Barros Neto.
Ele ressalta que na fórmula padrão
já está embutida uma margem de segurança,
que contribui, em alguns casos, para piorar a
situação. A freqüência
máxima encontrada pode variar dez batimentos
a mais ou a menos.
Um jovem de 33 anos que, usando a forma simplificada,
acha o número 187 pode se meter numa enrascada
se sua máxima real for 177, diz Turíbio
Leite. Ele coordena uma pesquisa semelhante a
ser publicada em junho e chegou a resultados próximos
dos encontrados pelos cientistas do Colorado.
Estudos como o da Universidade do Colorado e do
fisiologista brasileiro têm outra utilidade,
a busca de uma orientação individualizada.
“Qualquer cálculo generalizante está
muito longe do ideal”, diz o médico
esportivo Renato Lotufo. Achar uma fórmula
de freqüência cardíaca que responda
com segurança à média da
população é um desafio para
os fisiologistas. Justamente o princípio
que manteve o cálculo de Haskell válido
até agora.
Na tentativa de amenizar as imprecisões
das fórmulas generalizadas, uma corrente
da fisiologia relaciona a freqüência
máxima com outro valor referente aos batimentos
cardíacos: em quanto tempo o organismo
se recupera. Pesquisa feita pela Cleveland Clinic,
nos Estados Unidos, mostra que em uma pessoa comum
os batimentos devem cair vinte pontos após
um minuto de repouso. Nos atletas de alto nível,
o número deve beirar os cinqüenta.
Os pesquisadores chegam a afirmar que pessoas
que diminuem apenas doze batimentos cardíacos
nessas condições sofrem quatro vezes
mais riscos por problemas no coração
nos próximos seis anos em comparação
às que diminuem treze ou mais pontos.
Pesquisadores brasileiros discordam em parte das
afirmativas. “A recuperação
é extremamente importante, mas extrair
dessa medição um diagnóstico
cardíaco é chute”, diz o fisiogista
Lotufo. |